domingo, 22 de março de 2026
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19 de março de 2026

‘Não vai levar minha filha!’: advogado que matou esposa com tiro na cabeça em SC alega ‘pressão psicológica’

Sara Bianca Moyses Fabian Schneider, de 29 anos, foi assassinada com um tiro de espingarda calibre 12 na cabeça na manhã desta quarta-feira (18), dentro da residência do casal

Sara Bianca Moyses Fabian Schneider, de 29 anos, foi assassinada com um tiro de espingarda calibre 12 na cabeça na manhã desta quarta-feira (18), dentro da residência do casal, na Rua Dom Pedro II, no centro de São Lourenço do Oeste, no Oeste de Santa Catarina. O disparo, efetuado a menos de um metro de distância, atravessou a cabeça da vítima de um lado ao outro. O autor do crime é o marido dela, o advogado Sergio Fabian Schneider, de 36 anos, inscrito na OAB do Paraná.

Conforme a Polícia Civil revelou em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (19), o crime tem indícios de premeditação. O delegado Ricardo Melo, da Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI), detalhou que o autor afastou a filha do casal, de quatro anos, do quarto antes de buscar a espingarda, municiá-la e disparar contra a esposa no banheiro da suíte. A vítima não teve qualquer possibilidade de defesa.

Relacionamento de sete anos e casamento recente

O casal mantinha um relacionamento de aproximadamente sete anos, vivido em sua maior parte na cidade de Curitiba, no Paraná. Apesar do longo tempo juntos, os dois haviam se casado oficialmente apenas em 2025. Sergio Fabian é filho de moradores de São Lourenço do Oeste e, por essa razão, a família decidiu se mudar para o município catarinense no final do ano passado.

Conforme o delegado Ricardo Melo, o relacionamento era conturbado. O autor alegou em depoimento que vivia sob “pressão psicológica” e que a esposa praticava violência psicológica e maus-tratos contra a filha do casal, com comportamentos que a polícia classifica a princípio como possíveis indícios de alienação parental. Segundo ele, o medo de se separar e perder a guarda da criança era o que o mantinha naquela situação.

O estopim

Na manhã do crime, conforme a versão do autor, Sara Bianca teria ameaçado voltar para Curitiba com a filha e ficar na casa de amigas, algo que, segundo ele, já teria acontecido em outras ocasiões. A possibilidade de ficar longe da criança teria sido o estopim da discussão que culminou no assassinato.

O delegado explicou que, diante da ameaça, Sergio pediu para a própria mãe ficar com a filha e retirou a criança do quarto onde ele estava com a vítima. Só depois, já sozinho com Sara Bianca, ele buscou a espingarda calibre 12 que ficava no quarto, muniu a arma e entrou no banheiro.

Execução a menos de um metro

A arma utilizada foi uma espingarda calibre 12, classificada pela polícia como arma de alta energia. O tiro entrou por uma lateral da cabeça da vítima e saiu pela outra, a menos de um metro de distância. Sara Bianca estava no banheiro da suíte, na parte superior do imóvel, e não teve qualquer chance de reação.

O próprio autor confirmou que não chegou a anunciar ou avisar a vítima antes de efetuar o disparo. Na cena do crime, havia grande quantidade de sangue. Sobre uma cômoda no quarto, a polícia encontrou um cartucho de espingarda deflagrado.

Tentativa de alegar disparo acidental

Em depoimento, Sergio Fabian tentou justificar que o disparo teria sido acidental. Ele alegou que, ao fazer a manobra de alimentação da munição na câmara da espingarda, a arma teria disparado. Contudo, ele não negou que tinha a intenção de usar a arma e admitiu que a apontou para a vítima. Conforme a polícia, a dinâmica do crime e os elementos colhidos na investigação contradizem a versão de acidente.

Mentira para a mãe e sinais antes do crime

mãe do autor estava na residência no momento do crime. Ela relatou ter ouvido o barulho do disparo e, ao questionar o filho, ele afirmou que “estava tudo bem” e que “havia caído um guarda-roupa”. Sergio pediu para que ela retirasse a criança da casa. A mulher levou a menina até uma propriedade da família, onde ficou à disposição para prestar esclarecimentos.

A polícia revelou que o autor já havia dado sinais de que planejava uma ação extrema. Em um episódio anterior ao crime, Sergio informou a senha do próprio celular à mãe e disse: “Se acontecer alguma coisa, essa aqui é a minha senha”. A mãe ficou apreensiva e pediu que ele não fizesse besteira. Ele teria caído em choro na ocasião.

Conforme o delegado, a investigação apurou que o autor também cogitou tirar a própria vida. O cenário é compatível com casos de feminicídio seguido de suicídio, desfecho comum em situações extremas de violência doméstica, mas que neste caso não se concretizou.

Arsenal apreendido na residência

Equipes da Polícia Científica estiveram no local e realizaram os levantamentos periciais. A espingarda utilizada no crime foi recolhida pelos peritos. Dois aparelhos celulares também foram apreendidos e lacrados.

Após a liberação do local pela perícia, a polícia realizou buscas na residência e localizou um cofre oculto no quarto do autor, onde foram encontrados dois revólveres. Em outro cômodo, uma espingarda enrolada em papelão também foi apreendida. As armas eram legais e registradas em nome do pai do autor, que também morava no imóvel. A responsabilidade do proprietário pelo acesso do filho ao arsenal será apurada.

Caso atípico e sem registros anteriores

Um dos aspectos que mais chamou a atenção dos investigadores é a ausência total de registros policiais anteriores envolvendo o casal. A Polícia Civil fez consultas nos sistemas de Santa Catarina e do Paraná e não encontrou boletins de ocorrência, denúncias ou medidas protetivas vinculadas ao relacionamento.

Os delegados classificaram o caso como atípico. Conforme explicado na coletiva, o feminicídio normalmente é o desfecho de um ciclo progressivo de violência doméstica que começa com ofensas verbais, evolui para agressões físicas e, por fim, chega à execução. Neste caso, o primeiro registro policial já é o próprio feminicídio consumado, o que impediu que qualquer mecanismo de proteção fosse acionado antes da tragédia.

Arrependimento e alívio

Conforme o delegado Ricardo Melo, que conversou com o psicólogo da DPCAMI após o atendimento ao autor, Sergio demonstrou ao mesmo tempo arrependimento e uma espécie de alívio. O arrependimento, segundo a polícia, parece estar mais relacionado às consequências que ele vai enfrentar, como a prisão e o afastamento da filha. Já o alívio estaria ligado à percepção dele de que a criança não estaria mais exposta à situação que ele descrevia.

Pena superior a 20 anos

Sergio Fabian Schneider foi autuado em flagrante pela prática de feminicídio consumado, com a majorante de ter empregado meio que tornou impossível a defesa da vítima. A pena prevista ultrapassa 20 anos de prisão. Ele foi encaminhado ao presídio de Xanxerê, onde ficará à disposição da Justiça.

Santa Catarina soma sete feminicídios em 2026

São Lourenço do Oeste não registrava um feminicídio consumado desde 2015. Conforme os delegados, o município figurava entre os que apresentam os maiores índices per capita de violência doméstica no estado, de acordo com levantamento do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

Em 2026, o estado já soma 51 feminicídios tentados e sete consumados, incluindo o caso de Sara Bianca. A DPCAMI de São Lourenço do Oeste vem conduzindo projetos de prevenção, incluindo atendimento semanal com advogados para vítimas e parcerias com a rede de apoio. A Polícia Civil aguarda os laudos da Polícia Científica para dar continuidade à investigação.

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